meditations and thinkings

Estudos

Pensando em Unidade

Também publicado em http://triboj.org  28/03/2011

Vivemos no mundo da pós-modernidade, onde alguns valores e princípios têm sido trocados, reformulados, abandonados e/ou esquecidos pela sociedade. A união, que gera a unidade, é um exemplo disso. A cada dia que passa, as pessoas estão mais sozinhas e isoladas (fato perceptível principalmente nas grandes cidades) com suas escolhas e atitudes voltadas para o afastamento e não ajuntamento com outras. O espírito de individualismo paira sobre a sociedade pós-moderna, trazendo com ele o egocentrismo e a privacidade com uma força avassaladora; seu resultado é a divisão e separação de todos tipos de relacionamentos. Infelizmente percebemos esse “espírito” infiltrando também na vida dos cristãos.

Porém, sabemos que o homem é um ser relacional, que foi criado para pertencer e viver em comunidade. Nossa vida é impensável sem relacionamento e incompleta sem uma unidade. Na unidade há prazer e gozo como declara o salmista no cântico: “Como é bom e agradável os irmãos viverem em união!“ (Sl 133:1).
A união é o ato ou efeito de unir coisas ou pessoas, junção e aliança. A unidade é a consumação deste ato, fazendo com que as partes se tornem uma só. A bíblia nos traz a melhor definição e exemplo da perfeita e plena unidade: um Deus Trino e Triuno, (Pai, Filho e Espírito Santo) onde o todo é a soma das partes – a Trindade divina expressa a unidade na pluralidade. E assim deveria ser o estilo de vida da sociedade.

Jesus combateu toda posição/espírito de divisão e individualismo, sempre ensinando a seus seguidores viverem juntos como um só corpo. Em Sua oração no evangelho de São João capítulo 17, Jesus roga a Deus três vezes para que sejamos um:
“Pai santo, protege-os em teu nome, o nome que me deste, para que sejam um, assim como somos um.” (vs11)
“Rogo… para que todos sejam um, Pai, como tu estás em mim e eu em ti.” (vs21)
“Dei-lhes a glória que me deste, para que eles sejam um, assim como nós somos um:eu neles e tu em mim. Que eles sejam levados à plena unidade, para que o mundo saiba que tu me enviaste, e os amaste como igualmente me amaste.” (vs22-23)

Devemos lutar e nos esforçar para um estilo de vida cristão de ser, assim como foram os primeiros cristãos da Igreja (At 2-42-47): viviam em comunidade, em comunhão, repartindo tudo com todos, se alegrando e crescendo juntos. A unidade é de grande importância, é um anseio de Deus e necessidade humana.

É preciso também sempre ressaltar que Paulo na carta aos gálatas, condenou a desunião e a divisão como obras da carne, e os quais a praticam não herdarão o Reino: “As obras da carne são evidentes, … ambição egoísta, a desunião, as divisões, as invejas, as bebedeiras, as farras e outras coisas parecidas com essas. Repito o que já disse: os que fazem essas coisas não receberão o Reino de Deus.” (Gl 5:19-21)

No Reino de Deus não há espaço para divisão. Quem pertence ao Reino pertence à família de Deus, em um só corpo no Corpo de Cristo.
A União faz a força, a União traz a força, a União reflete a Força.
Na Unidade há força, na Unidade se une as forças, na Unidade somos fortalecidos.
Na comunhão brota força, prazer, alegria, amor e sentido!

Minha oração é para que possamos desfrutar de um relacionamento com Deus e com os homens, recheado de união e unidade para glória de Deus.

Para finalizar, deixo um poema de Gregório de Matos e seu jogo de palavras:
“O todo sem parte não é todo,
A parte sem o todo não é parte,
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga que é parte, sendo todo

Em todo sacramento está Deus todo,
E todo assiste inteiro em qualquer parte,
E feito em partes todo em toda parte,
Em qualquer parte sempre fica todo.

O braço de Jesus não seja parte,
Pois que feito Jesus em partes todo,
Assiste cada parte em sua parte.

Não se sabendo parte deste todo,
Um braço que lhe acharam, sendo parte,
Nos disse as partes todas deste todo.”


Conhecendo

“Conhecer a Deus está correlacionado em conhecer a nós mesmos.”

Na caminhada cristã percebemos que conhecer a Deus está correlacionado em conhecer a nós mesmos, ou seja, existe uma relação estabelecida de uma maneira dependente, em que quando conheço a Deus, começo a conhecer quem sou.
Mas o que é me conhecer? Me conhecer é conhecer minha identidade, essência, natureza, situação, minhas fraquezas, falhas, desequilíbrios, pecados, limites; é conhecer meus pensamentos, sentimentos e comportamentos, meus desejos e movimentos do meu coração; meu temperamento, caráter, minha pequenez e insignificância diante da vida e das insolúveis questões do mundo, minha incapacidade de amar, ser feliz, me proteger, salvar, etc. O resultado automático do conhecimento de quem sou hoje, é um grito de desespero e socorro a algo maior que eu, algo divino que transcende minha situação.
Quando olho para mim, reconheço a grandeza e soberania deste Deus.

João Calvino destacou a necessidade absoluta de auto conhecimento preciso para se conhecer Deus . Ele escreveu: “Quase toda a sabedoria que possuímos, ou seja, sabedoria verdadeira e concreta consiste-se em duas partes: o conhecimento de Deus e de nós mesmos” (Institutos, 1.1.1).
A vida de Simão Pedro foi um grande exemplo disto, durante os anos de convivência pessoal com Cristo, aprendeu a conhecer a si mesmo e a seu Mestre. Uma das passagens bíblicas que podemos refletir é no evangelho de São Mateus 16:13-18, que diz:

“E, chegando Jesus às partes de Cesaréia de Filipe, interrogou os seus discípulos, dizendo: Quem dizem os homens ser o Filho do homem? E eles disseram: Uns, João o Batista; outros, Elias; e outros, Jeremias, ou um dos profetas.
Disse-lhes ele: E vós, quem dizeis que eu sou? E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. E Jesus, respondendo, disse-lhe: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que te revelaram, mas meu Pai, que está nos céus.Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela..”

Pedro no processo de conhecer seu Mestre, reconheceu que Ele era Cristo Filho do Deus vivo, consequentemente Jesus aponta quem esse homem era: Simão Barjonas; um apontar de reconhecimento e não de julgamento. Nas palavras de Jesus “tu és Pedro”, revelam que quando entramos em contato com Cristo, descobrimos nosso verdadeiro EU.

O profeta Isaías também no capítulo 6 de seu livro, vê o Senhor e conhece toda Sua glória em uma visão (Is 6:1-4), em seguida seu olhar se desloca para dentro de si, e se reconhece “.. .ai de mim, sou homem de lábios impuros..” (Is 6:5).
Quem sou eu? Qual minha verdadeira identidade? Quem sou verdadeiramente sem máscaras e engano? No tempo que vivemos (pós-modernidade), há uma força esmagadora que tenta definir quem somos, como vivemos e como devemos nos comportar. Isso é uma grande luta para o auto-conhecimento. Quando perguntaram ao filósofo Thales de Mileto o que era a coisa mais difícil de conhecer, ele respondeu: “Si próprio”.

Minha oração e esperança é que possamos crescer a cada dia na graça e no conhecimento de Deus e de nós mesmos, para experimentarmos uma relação íntima e profunda, declarando as mesmas palavras do salmista: “Senhor, tu me sondas e me conheces”.


Pregar o Evangelho

“E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura.” (Mc 16:15)

Cristo nos deixou um mandamento (também responsabilidade) citado no evangelho de São Marcos, recebida e interpretada de uma maneira demasiadamente resumida por nós cristãos. Encontro muitas mentes evangélicas ainda com uma idéia arcaica e incompleta no que diz respeito a pregar o evangelho, e com quatro perguntas, começo essa reflexão – O que é pregar o evangelho? Pregar para o espírito? Pregar só para salvar a alma? Como pregamos o evangelho a toda criatura?

Evangelho vem da palavra grega “ευαγγέλιον” (euangelion – boas novas).  Pregar o evangelho quer dizer anunciar as boas novas ou proclamar a mensagem de Cristo. As maneiras de proclamar ou pregar o euangelion são diversas, sabendo que não se resume na transmissão verbal. Podemos pregar o evangelho com ações, atitudes, gestos, manifestações e outros, sem necessariamente utilizarmos palavras; e aqui me vêm a famosa frase de São Francisco de Assis a minha mente: “Pregue o Evangelho sempre, se necessário, use palavras”.
Devemos entender a dimensão e totalidade desse evangelho do Reino.

Erramos em pensar que pregar o evangelho é somente pregar para o espírito, como alguns dizem, ou somente apresentar o plano da salvação para salvar o espírito do homem, ou que ao evangelho só se remete a área espiritual do homem. Erramos em resumir a pregação para a salvação da alma.
O evangelho do Reino abrange e envolve todas as áreas do homem, da sociedade e de toda a criação. Ele traz respostas/soluções para o homem em sua totalidade (corpo alma espírito), sociedade (política, cultura, pobreza, desigualdade, racismo, etc.), e criação (preservação do meio ambiente, desenvolvimento sustentável, etc.).

Ou seja, pregar o evangelho do Reino de Deus é trabalhar para o fim da pobreza e miséria, é lutar contra o preconceito e racismo, é dar oportunidade de vida para o esquecido, esperança para o perdido, força para o viciado, justiça para o indefeso, cura para o enfermo e para o doente emocional; é guerrear contra a corrupção na política e cobrar os direitos do povo, é resgatar a beleza de uma cultura, é lançar ânimo para o depressivo e liberdade para o cativo; é perseverar na preservação de nossa fauna e flora e toda bela criação divina,… Pregar o evangelho é anunciar o fim da rebeldia e a vinda do Reino de Deus, trazendo transformação, vida e progresso para todos os planos.

Para completar, o profeta Isaías nos diz no capítulo 61 de seu livro:

“O Espírito do Soberano Senhor está sobre mim porque o Senhor ungiu-me para levar boas notícias aos pobres. Enviou-me para cuidar dos que estão com o coração quebrantado, anunciar liberdade aos cativos e libertação das trevas aos prisioneiros, para proclamar o ano da bondade do Senhor e o dia da vingança do nosso Deus; para consolar todos os que andam tristes, e dar a todos os que choram em Sião uma bela coroa em vez de cinzas, o óleo da alegria em vez de pranto, e um manto de louvor em vez de espírito deprimido. Eles serão chamados carvalhos de justiça, plantio do Senhor, para manifestação da sua glória.”

Falar de Jesus = pregar o evangelho. Boas obras = pregar o evangelho.

Minha oração é para que, diante destes conceitos venhamos a reformular nosso pensamento sobre o mandamento de Jesus e como o obedecemos. E também para que Cristo levante os cristãos de nosso Brasil e mundo, para serem agentes de transformação do Reino em todas as áreas pregando a totalidade do evangelho.


Chamado Missionário ou Sentimento Cristão?

Diante algumas inquietações sobre este tema, desenvolvi  conceitos básicos que me ajudaram a entender a diferença entre eles e espero que os ajude também.

Todo cristão foi chamado para ter o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus e que provém Dele: amar seu próximo, se doar em serviço e ter uma compaixão ao ponto de entregar sua própria vida.
E fazer missões é para todos: um sentimento cristão gerado pelo Espírito que acompanha nossa caminhada independente de onde estamos ou o que exercemos. É na verdade um mandamento para todo cristão (Mt  28:18-20).

Agora chamado missionário é uma questão de vocação. Cristo chama determinadas pessoas, com o mesmo sentimento cristão, para dedicarem suas vidas em prol da obra missionária exclusivamente.
Cada um tem uma vocação, e todas elas servem a missão de Cristo.

Uma vez me perguntaram porque nos apelos em cultos missionários enchem de gente e após isso, continua a grande necessidade de missionários para obra. Minha resposta foi: Em momentos de “emocionalismo” e “sentimentalismo”, e a maioria deles com fotos e vídeos de pessoas necessitadas, o sentimento cristão é aflorado e todos se sentem comovidos e tocados, e aceitam o convite apresentado. Algo normal pelo fato de sermos pessoas movidas por amor e compaixão.
Porém aqui está o perigo:
Momentos assim, NÃO confirmam nosso chamado missionário. Chamado missionário é algo mais concreto que desenvolve com o tempo. Momentos de apelo podem renovar e dar nova força para um chamado já existente. Por isso não me assusto com a quantidade de pessoas que aceita os apelos e quantidade de pessoas que está  na obra missionária.

Se você somente baseia seu chamado em “momentos de choro” em apelos, cuidado, você pode se frustrar. Peça discernimento a Cristo para você não entrar somente em uma onda missionária e morrer na praia.

Chamado missionário é diferente de sentimento cristão.
Tenha e desenvolva o sentimento cristão, e com ele sirva sua vocação.
Descubra e exercite sua vocação, sendo sua base o mesmo sentimento que houve em Cristo.

Minha oração é para que Deus desperte missões no coração da Igreja brasileira e ajude cada um em sua própria vocação, confirmando nos corações que todo seguidor de Jesus tem um lugar e papel no Reino.


Fim de Ano: Ação de Graças.

“Que darei ao SENHOR por todos os seus benefícios para comigo?
… Oferecer-te-ei sacrifícios de ações de graças e invocarei o nome do SENHOR.” (Sl 116)

Ação de graças é a expressão da gratidão que temos para com Deus por tudo o que Ele fez em nossas vidas; é o ato de agradecer ao Senhor por todas as suas realizações e reconhecer Seu majestoso caráter: bondoso, fiel, misericordioso, compassivo, amoroso, etc.
Essa atitude deve estar presente e ser constante na vida do cristão, não como uma imposição, mas é uma consequência de nosso conhecer e se relacionar com Cristo. Uma atitude diária que independe das circunstâncias que os homens determinam como boas ou ruins.
Essa é a vontade de Deus: sermos sempre gratos (Ef 5:20), e por todas as coisas (1Ts 5:18).

Fim de ano é sempre um momento para pensarmos na vida – relembrarmos o passado, refletirmos sobre o presente, e planejarmos o futuro. Uma ótima data para agradecer ao Senhor por tudo o que passamos: por nossas vitórias e derrotas, por nossos acertos e erros, por nossa alegria e tristeza, por nossos sorrisos e lágrimas, por nossas surpresas e decepções, por nossas dúvidas e respostas, por nossos sonhos e realidade, por oportunidades e livramentos, pelas bênçãos e tribulações. Como é bom olhar para trás e ver que o Senhor está conosco, até aqui Ele tem nos ajudado! Que esse olhar e reconhecimento nos resulte em um coração, mente e alma totalmente prostrados em gratidão ao Senhor nosso grande Deus.

Seja grato a Deus de todo seu coração por mais esse ano, dê honra, glória, louvor e adoração que Lhes é devido. Poder, majestade e ação de graças ao onisciente Criador e Mantenedor do mundo e de seu povo.

“ A gratidão é a memória do coração.” (Antístenes)

 

Em anexo um louvor de agradecimento que gosto muito:


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